Tuesday, May 19, 2009

Hedonismo


21/05/07

Este texto diz muito sobre a mediocridade desses tempos pós-modernos: Corremos muito para sobreviver nisso aqui. Vale a pena?

Hedonismo
Enviado por Mag Guimarães, Roterdã-Holanda

Hedonismo, segundo o dicionário Houaiss, é a "doutrina filosófica que encara o prazer e a felicidade como bem supremo. Dedicação ao prazer como estilo de vida"

Por José A. Pimentel

Eu li, em um dos livros do Ruy Castro que, ainda mais legal do que unir o útil ao agradável, é unir o agradável ao agradável. A exaltação do desfrute. Há tempos venho ruminando sobre isso.

Conheço muitas pessoas que vão ao cinema, a boates e restaurantes e parecem eternamente insatisfeitas. Até que li uma matéria com a escritora Chantal Thomas na revista República e ela elucidou minhas indagações internas com a seguinte frase: "Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer".

Lazer e prazer são palavras que rimam e se assemelham no significado, mas não se substituem. É muito mais fácil conquistar o lazer do que o prazer. Lazer é assistir a um show, cuidar de um jardim, ouvir um disco, namorar, bater papo. Lazer é tudo o que não é dever. É uma desopilação. Automaticamente, associamos isso com o prazer: se não estamos trabalhando, estamos nos divertindo. Simplista demais.

Em primeiro lugar, podemos ter muito prazer trabalhando, é só redefinir o que é prazer. O prazer não está em dedicar um tempo programado para o ócio. O prazer é residente. Está dentro de nós, na maneira como a gente se relaciona com o mundo.

Chantal Thomas aborda a idéia de que o turismo, hoje, tem sido mais uma imposição cultural do que um prazer. As pessoas aglomeram-se em filas de museus e fazem reservas com meses de antecedência para ir comer no lugar da moda, pouco desfrutando disso tudo.

Como ela diz, temos solicitações culturais em demasia. É quase uma obrigação você consumir o que está em evidência. E se é uma obrigação, ainda que ligeiramente inconsciente, não é um prazer.

Complemento dizendo que as pessoas estão fazendo turismo inclusive pelos sentimentos, passando rápido demais pelas experiências amorosas, entre elas o casamento. Queremos provar um pouquinho de tudo, queremos ser felizes mediante uma novidade. O ritmo é determinado pelas tendências de comportamento, que exigem uma apreensão veloz do universo.

Calma. O prazer é mais baiano

O prazer não está em ler uma revista, mas na sensação de estar aprendendo algo. Não está em ver o filme que ganhou o Oscar, mas na emoção que ele pode lhe trazer. Não está em faturar uma garota, mas no encontro das almas. Está em tudo o que fazemos sem estar atendendo a pedidos. Está no silêncio, no espírito, está menos na mão única e mais na contramão. O prazer está em sentir. Uma obviedade que merece ser resgatada antes que a gente comece a unir o útil com o útil, deixando o agradável pra lá.

Imagem: http://farm4.static.flickr.com/3099/2701528969_ce748cbeb5_o.jpg

É humano um ser que mata crianças?




09/02/07

É humano um ser que mata crianças?

Na pressa de consumir um carro roubado, três menores de 21 anos não perceberam outro menor, de seis anos de idade, que, desesperado, tentava sair do automóvel. O menino foi esquartejado, do lado de fora do carro em alta velocidade.

Esse episódio é a síntese da correria em que hoje vivemos: precisamos, a todo custo, acompanhar as demandas de uma sociedade doente, que só pensa em consumir a todo custo - nem que para isso seja necessário pisar ou esquartejar um semelhante.

E esse esquartejamento está presente em todos os lugares, onde a lei do dinheiro fala mais alto: no ambiente de trabalho; no governo; no Congresso Nacional; no governo; na cobrança de impostos; no ato de se expulsar um pedinte de uma lanchonete e de se matar inocentes no Iraque...

Essa foto eu tirei em Juazeiro do Norte, Ceará. Essas crianças pediam R$ 1, 00 em troca de ricas informações histórico-turísticas. Agora, quantas vozes infantis precisarão ser caladas pela fome – outra forma de esquartejamento social?

Saulo Andrade - músico, jornalista, cidadão.

A Alma dos Diferentes (Artur da Távola)


Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser diferente.
Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos
sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente,
talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente
medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente
que não vingou.
Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os
entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo
inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o
diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando
algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere
a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O
verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos
dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o
que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção
aguçada em : "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um
estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "
O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba
incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram
( e se transformam) nos seus grandes modificadores.
Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo
dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto
todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora
onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre
sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito
rotiniza. Sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que
ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda
onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não
desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o
adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele
aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a
média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados,
magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo,
excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas
erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão,
doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas
deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender.
Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são
capazes.
Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja
suficientemente forte para suporta-lo depois.

Poesia de Dayse Mary de Andrade:


São 4 horas da manhã e Branca desperta de um sonho confuso.Ultimamente tem sido assim. Casa vazia, luzes apagadas. É o que Branca é.Ela se revira na cama grande, o rádio sempre ligado ao lado da cabeça noticiando repetidamante os mesmos fatos.Melhor assim.Quando sintoniza em estações musicais o sono nunca vem.As divagações a inquietam com as canções.Ainda agorinha Bethânia cantando sua realidade:”Ah... se eu te pudesse fazer entender...que eu preciso aprender a ser só...”Mas Branca não sabe a quem dirije sua dor de solidão profunda descrita na canção.Amores teve muitos. Amigos ,ontem mesmo era sábado e esteve com os mais próximos,Branca agora os revê parados,enfileirados em momentos e no aparador cheinho de porta-retratos. Alguns aconchegados a ela em abraços e sorrisos carregadinhos de cumplicidade ao seu jeito de ser, meio fora de padrão.Branca sempre se sentiu assim. Sem par. Mesmo exposta, compartilhando com todos suas dores e prazeres exagerados.E agora essa nova velha dor incessante e calada, erosiva, como se abrisse o túnel vazio e escuro do seu dentro em ser.Uma cidade craterada bem ao meio sua angústia.Se ao menos pudesse se embriagar no absinto da leveza ... um copo de vinho para celebrar a vida,comemorar o tempo que passou e o que está por vir.Do que será feita a vida de Branca daqui a não sabe mais tempo?Continuará assim, alguns outros sábados, os bares, os amigos mais próximos enfileirados em sorrisos e frases, se entreolhando , tentando sempre um grande encontro?Todo mundo compartilhando o “é melhor ser alegre que ser triste, mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”...
Agora lhe vem à tona o depoimento do Zé Catimba, o grande compositor.De um requinte tão feito do simplesmente.As palavras dele se repetiam ecoando pela sala de Branca.
Zé Catimba veio lá do sertão mas “vive na cidade sem ficar contrariado”há muitos anos..Uma belezura só,a alma deste homem , resplandecendo no encontro do bar, pairando sobre a mesa como luzes suspensas.Coisa mais bonita o desfolhar da história de um sertanejo,um personagem contemporâneo trazendo dentro outros tantos e tempos de outrora. Lirismo de repentista e feiras de nordeste, realejo urbano,sonhos por atacado em sambas e canções ,maçãs do amor de parques da memória. Uma literatura inteirinha feita de menino de rua, engraxate,morros , planícies,mares,avenidas, de todas as subidas e descidas de uma trajetória; mangueiras e portelas desfilando na varandinha do encontro.Mestre-sala da existência.Sua porta-bandeira, a poesia, que ele vai conduzindo em estações primeiras de canções e penúltimas pois sempre haverá uma próxima. E enquanto falava sentia-se à volta uma aura de alas e escolas e velhas guardas de anjos negros e sambistas.Lindas cabroxas entre nuvens de confetes e estrelas rodopiavam ,os quadris ao som de suas palavras - bateria nota 10- e de um samba ainda não escrito.
Além dele, só as rosas falavam.Mas poucos ouviram.
Imagem: http://ipt.olhares.com/data/big/6/62285.jpg

Dayse Mary de Andrade

Carta ao filho distante


"Estou aqui no açaí,
o povo brasileiro continua lindo,
continua tendo aquela esperança
que se vê a todo instante
no sorriso do gari
varrendo a rua sem fim
marcando os passos , na cabeça o descompasso
levando dentro da caçamba o lixo terceiro-mundista.
O lixo mal cheiroso dos gabinetes do poder,
vai varrendo e cantarolando
um samba por fazer.
O povo brasileiro continua lindo ,
amenizando sempre a dor num churrasco de esquina
num copo gelado
no requebro dos quadris
da falsa loura
autêntica,
Julietíssima, sonhando com o próximo amor.
Ai quem lhe dera o príncipe da Clin* de uniforme e longas botas
galgando o caminhão
tão valente e audaz
ó brisa de fumaça que lhe traz
o sonho de um beijo
misturado ao cheiro da carne que queima
na esquina
do churrasco
do copo gelado, jeito safado de disfarçar a lida
numa canção doída
de pandeiro e cavaquinho.
O povo brasileiro sabe
e como ninguém
transformar a vida
em samba ,varrer o desalento pra caçamba
e revirar os olhinhos
como Carmem Miranda."
Dayse Mary de Andrade
02.04.2008

*Companhia de Limpeza Urbana de Niter'oi

Encontros da solidão

NADA MAIS RARO QUE UM SAGAZ ESPIRÍTO SUFICIENTEMENTE AUTO-SUSTENTÁVEL QUE, AO SE DIZER GRANDIOSO, CHEGA A NÃO PRECISAR DE MAIS NINGUÉM PARA DESVENDAR/DESENVOLVER OS SEUS PRÓPRIOS MISTÉRIOS; ESCONDIDOS NO MAIS PURO ÂMAGO DE SUA SENSIBILIDADE (ISSO PORQUE TALVEZ NÃO TENHA ENCONTRADO UM AMOR PARA A VIDA INTEIRA...).

'Foi um rio que passou em minha vida'

Estar do outro lado do mundo, ouvindo música romantica, às 7h, pensando na mulher do mesmo continente/universo que eu. Existe forma melhor de se fazer um ato político?
“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”; e, claro, os dias não bastam para preencher vazios e respostas inconclusas que embarcam e desembarcam em Brasis de pensamentos, carros, passos e speakers (in English, please!).
Mas, um dia, todos retornarão “feito bailarina, que logo se alucina, salta e te ilumina, quando a noite vem…” Não. Deixa pra lá: A noite veio, sem ilusões. Muda de posição, e encosta sua cabeça em meu peito. Vamos conversar sobre o que ainda não sabemos. Incompletude. Inconclusão. Descobrir porque absurdos, afinal, a professora de inglês não sabe da perfeita tradução da palavra “ditadura”, nem quem são esses tais de Jorge Amado, Neruda ou Garcia Marquez…
“Ahora verán que estamos en salsa!” Deixemos portanto que cada Mirada, sonrisa, beso y silencio se converta em atos políticos. Melhor: Tanto faz… Prefiro o Segundo Caderno: Baila comigo, que así está bueno…

Eu sou:


Boleiro, brasileiro, do Rio de Janeiro. (...) "A alegria batendo no peito; o radinho contando direito, a vitória do meu tricolor. Vou que vou", procurando balas perdidas de cogumelo num país distante, só que nunca acompanhado de "cegos", perdidos em tiroteios de consumo e mediocridade...
"Caliente", de repente penso na minha gente - "simples, que vontade de chorar" -, com as almas repletas de espontaneidade, refletidas em sorrisos sofridos e gargalhadas escandalosas - ainda bem!
E assim sigo: Em sambas, em canção, em salsa, merengue, rock n' roll, paixão... "Cabeça de homem, coração de menino". De humilde. "Amigo de fé, irmão camarada".
Peregrino - com a devida licença da camarada Dacal rsrs. Olhos abertos; sangue latino.
Sobrevivendo... Ou melhor, não: "Vivendo e aprendendo a jogar"...

Perfil de um amigo niteroiense (Vladmir):


"SOU UM CARA LEGÁL. NA MAIORIA DAS VEZES, MUITO DEBOCHADO, MAS ULTIMAMENTE VENHO TENTANDO ME CONTROLAR. SOU UMA DAS FORÇA UNDERGROUDIANDA, EMBORA PROVEM O CONTRÁRIO, SE É QUE ESTE NÃ0O SEJA UM DOS CAMINHOS PARA PECORRER. GOSTO DO AMOR. GOSTO DE SEXO. GOSTO DE FICAR PARADO. GOSTO DE NADAR A PÉ. ALÉM DISSO, BEBIA MUITO NAS MEDIAÇÕES DOS ARCOS DA LAPA. AGORA TOW MAIS DEVAGAR. ERROS DE PORTUGUÊS SÃO MUITOS. ERROS DE ALEMÃO SÃO MUITOS, MAS SÓ TEM X-9. SRPINGLOVE. É SUPER NATURAL, UM DIA A GENTE PERDE, E NO OUTRO DIA A GENTE APANHA. NEGÓCIO É FICAR DO LADO BEM. AMAR É UM ERRO. FAZER SEXO É A SOLUÇÃO. MAS CUIDADO PRA CAMISINHA NÃO ESTOURAR. ELA PODE NÃO TER TOMADO O ANTI. SOU CONSERVADOR, PQ GOSTO DE CONSERVA. GERLAMENTE COM LEGUMES E TAL. VC RI DE MIM. RIO DE TI. A GENTE RI JUNTO...E FAZ UM MOVIMENTO. ISSO AQUI É MINHA DESCRIÇÃO. O QUE ISSO TEM HAVER?!NÃO FIQUE SANGADA(O). TENHO SAUDADE DA MINHA INFÂNCIA. O SOL NA MINHA CARA E A VONTADE DE VIVER. SORRIR PRAS MENINAS....UM CHURRASQUINHO DE PIRANHA NA ESQUINA. HUM....QUE DELÍCIA. ACHO QUE DÁ PRA SACAR ALGUMA COISA. MAS NAUM ESQUEÇAM?!CANTAREIRA É UM DOS LUGARES MAIS INTERESSANTES QUE JÁ VI....ALI TEM DEUS E O DIABO TOMANDO CERVEJA.
UMA ABRAÇO A TODOS". OSTRACISMIR ESCANTEIO

Meu mundo é hoje


O Al-Kaeda ja disse que o Obama é um "negro a serviço da união dos Estados Unidos: atuará apenas para defender e manter a hegemonia da elite branca..." E agora, José: qual vai ser a do mundo?
Os desencontros continuam, principalmente quando os brancos se metem a ter consciência negra. Quer mais polemica? A consciência do branco seria realmente negra quando ele atua -mesmo que "involutariamente"- contra os ancestrais do Brasil-Africa?
Talvez porque ninguém ainda percebeu que a Consciência mundial de nossa GRANDEZA e RIQUEZA não deveria ser necessariamente Negra; mas miscigenada...
B-Negão tem razao: "O processo é lento"...

Pequena análise anti-poética da letra de "Angústia", dos Secos e Molhados.


AGONIZO SE TENTO
RETOMAR A ORIGEM DAS COISAS (Retomar a origem das coisas é um dos maiores tormentos da humanidade. Nela, Deus e o diabo -representados pela tristeza e alegria- caminham juntos, já que tudo se limitará à repetição do erro ou à correção do equívoco).
SINTO-ME DENTRO DELAS E FUJO (Bom, mas quando se consegue retomar essas tais origens, melhor -para o aprendizado- não fugir. Cleber BamBam já disse que isso "faz parte").
SALTO PARA O MEIO DA VIDA (E, a partir do momento em que não fujo, o início -e não o meio- da vida se reflete, porque a alma se revigorou com o retorno das origens).
COMO UMA NAVALHA NO AR (Não exatamente como uma navalha no ar, mas, também poeticamente, como um Deus, que transcende o lugar-comum).
QUE SE ESPETA NO CHÃO (E, claro, continuo com os pés no chão, tentando nãao me espetar com os espinhos do inicio, meio e fim da vida).

NÃO POSSO FICAR COLADO NA NATUREZA COMO UMA ESTAMPA (Qualquer fiscal da natureza fica colado na natureza como uma estampa. Isso faz bem à procura de si mesmo).
E REPRESENTÁ-LA NO DESENHO
QUE DELA FAÇO
NÃO POSSO (A arte de representar me instiga a imitar uma árvore).
EM MIM NADA ESTÁ COMO É
TUDO É UM TREMENDO ESFORÇO DE SER (Árvores representadas remetem a raízes. Daí voltamos para a dor do ser que agoniza ao tentar retomar as origens das coisas, nesse tremendo esforço de ser).

O subúrbio do mundo



Coisa mais interessante e ser cleaner de shopping (faxineiro de shopping), aqui na Australia. Sinto-me como um retirante nordestino, que, ao chegar no Rio de Janeiro, com muito esforço, consegue um emprego no Plaza Shopping Niterói (Praza, de humilde, né!), garantindo mais um "posto de trabalho" (como gosta de afirmar a nossa podre elitizinha direitista).
Eu, neste caso, sou um retirante do mundo. Venho de um exótico e distante País. Um "planeta" diferente, ao sul das Américas, muito conhecido pela violência, pelas festas (Carnaval!! Uhu!!), pela corrupção, pelo futebol cinco estrelas e pelas lindas "bailarinas", que supostamente falam espanhol ("Não? Sorry! No Brasil vocês falam português? Ah, não sabia"...).
Todas as loirinhas Anglo-Saxônicas -como em qualquer shopping da Barra-, empurradas pela correria do sonho pequeno-burguês de cada dia, são praticamente um objeto distante da minha realidade.
Invisível, faz-se necessário esquecer -durante o período laboral- toda a sua bagagem acadêmica. Afinal, limpar o chão de um templo de consumo é o que resta, pelo menos por enquanto, para a maioria dos imigrantes latino-americanos, quando a busca por dinheiro que paga as contas se torna mais importante que qualquer pseudo-posição na piramide social (especialmente em períodos de Crise Financeira Mundial).
Hoje à tarde passei por um episódio curioso.
A neo-zelandesa que trabalha comigou me perguntou: "Você gosta desse trabalho?". E eu disse: "Na verdade, eu nao gosto, mas é razoavelmente bom, já que consigo viver dignamente trabalhando como cleaner. No meu País sou jornalista". Espantada, desengoncada, envergonhada e sem o menor traquejo, ela chutou o balde, deixou a água quente cair no chão, e continuou, com os olhos arregalados de susto ("afinal, como pode um ser pensante trabalhar 'COM ISSO'?"): "Mas o que você está fazendo aqui, limpando?". E eu disse: "Isso e o que me cabe para bancar meus estudos, qualificar-me na Australia e, quem sabe, voltar ao Brasil para tentar -eu disse tentar- recomecar a minha vida profissional e receber o mesmo salário (ou menos) que recebo mensalmente aqui, mas trabalhando lá, como jornalista".
Definitivamente, ser faxineiro no Primeiro Mundo é um excelente exercício sociológico -propício para aqueles que pensam estarem construindo seus castelos, isoladamente de todo tipo de miséria humana. Coitados. Muita "gente bonita" -de alma pobre- de nossas grandes cidades não percebe que, no fundo, a favela são eles mesmos. Somos nada menos que o subúrbio do mundo.

Roubado na Austrália



"Em setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver em um mundo seguro, apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós, em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da bolsa quando fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias". Augusto Boal.



E um milhagre aconteceu! Sim, meninos, eu vi (mas as cameras BBB do shopping Canguru, não)! Assaltaram-me aqui, nesse país maravilhoso e organizado, onde nada sai do lugar, da lei, da ordem (aliás é crime tomar uma gelada e cantar depois das 20h)... Fui roubado!



De certa forma, roubaram bens materiais... A dignidade –graças a meus embasados principios, não. Sim, o dinheiro está curto, e me tornaram refém de uma vida privada –privadas-, numa empresa que não proteje seus funcionários e ao mesmo tempo lava as mãos, dizendo-se não responsabilizar pelas mochilas de seus trabalhadores, dentro de sua própria sala, no ambiente em que almoçaamos, tiramos o break.


Engraçado, alguma coisa está fora da ordem –diria Caetano-, ainda que alguns esbravegem, insistindo que -o Brasil é pior, hein...


Pior? Não, meus caros. O Brasil e difícil de se viver, de se ganhar dinheiro, mas nada melhor que saber de onde vem o roubo maior –mais uma vez, Caetano-, dos podres poderes. Aqui, quem teria sido? Um japonês, coreano, australiano, brasileiro, boliviano? Em um mundo globalizado pela competição do cada um por sí, na esteira de uma crise financeira muito maior, que vai, aos poucos, revelando a face de uma humanidade doente... Qual a nacionalidade do mau-caratismo e da canalhice?


E aí, qual o grau de limpeza de sua barra nesse quinhão?. Na grande mentira e ilusão do mundinho atual, você conseguiu escapar ou vai continuar refém, apenas porque você é mais um –ser humano que pensa, fala, escreve, faz música, ama, sobrevive, imigra? Afinal, não há escolha. Tudo bem, continue assim. Mas, quando sair, dê a descarga –claro, depois de limpar todas as privadas-, por favor...



Hipócritas do Primeiro Mundo, Uni-vos!


BRISBANE- Tudo bem. Sou brasileiro, vim de um país considerado “pobre”, quando comparado com as principais economias do mundo; sou vítima de um critério excludente, quando tento ultrapassar as fronteiras de meu país, rumo à tentativa de uma vida melhor no Primeiro Mundo, etc e tal...
Mas a óbvia constatação de que a hipocrisia é um fenomeno universal, remete-me a um caso específico, de um companheiro de curso de hospitality, aqui em Brisbane, na Austrália : o porto-riquenho Carlos Alberto.
Eu já sabia que Porto Rico – país localizado na América Central - era, ao mesmo tempo, estado pertencente aos Estados Unidos e que, “paradoxalmente”, fala espanhol.
Ok, explico esse paradoxo.
O passaporte desse nobre compatriota latino-americano mostra uma ambiguidade curiosa. Para aportar na Austrália, com o visto de estudante, ele passou pelo mesmo problema que nós, brasileiros: preencher toda a papelada da embaixada australiana; fazer os exames médicos necessários para entrar no país; comprovar que pode ficar por aqui sem trabalhar (mas todos têm de trabalhar, não tem jeito), para, enfim, conseguir o tão “sonhado” carimbo: “Sim, você agora está apto a estudar o principal idioma do mundo – inglês -, e tentar um emprego de limpador de privadas na nossa paradisíaca e imensa ilha britânica”.
Carlos, no caso, tem o visto de estudante. Pode trabalhar apenas 20 horas semanais. No entanto, por ser o melhor chef do restaurante, ele chegou a trabalhar mais: 40.
Resultado: a chefe teve de diminuir suas horas, alegando que o seu visto não lhe permitia fazer mais que 20 horas, e está com medo de deportar um “Cidadão Americano”.
Ah! Deixa ver se eu entendi. O nosso intrépido e talentoso chef, para chegar aqui, penou um bocado. Aprendeu inglês; continua com o visto de estudante e, graças a sua habilidade na cozinha, atingiu o cargo máximo na arte da culinária, no competitivo mercado australiano.
Porém –(ai, porém) Há um caso diferente-, a sua “dupla” cidadania (que de dupla não tem nada, já que para chegar aqui ele passou pelas mesmas dificuldades de qualquer um de nós, latinos, ou, melhor dizendo, TERCEIRO-MUNDISTAS), há o temor de sua chefe, que não quer sofrer a ameaça de que a imigração deporte um “Cidadão Americano” (que chique!).
Ao se averiguar que em seu passaporte está escrito “Cidadão Americano”, supõe-se que o costa-riquenho –a Costa Rica é considerada estado dos EUA- possa gozar de plenos direitos de um norte-americano. Mas não. Ele tem o direito apenas de trabalhar as 20 horas semanais por aqui e, caso seja deportado, seria complicado: afinal, que país do mundo quer criar problemas com quem realmente manda?
Seria o caso de se pensar: O Brasil e outros países da região passaram anos entregando suas riquezas aos Estados Unidos. Não seria a hora de, agora, os irmãos do Norte aproveitarem a deixa, permitindo que também sejamos “Cidadão Americanos”? Quem sabe, assim, seríamos tratados como seres humanos de primeira classe. Afinal, Não é qualquer “limpador de privada” que pode ser deportado com um passaporte MADE IN USA…

Saulo Andrade – Músico, jornalista e, atualmente, apenas um rapaz latino-australiano.