Tuesday, May 19, 2009

Hipócritas do Primeiro Mundo, Uni-vos!


BRISBANE- Tudo bem. Sou brasileiro, vim de um país considerado “pobre”, quando comparado com as principais economias do mundo; sou vítima de um critério excludente, quando tento ultrapassar as fronteiras de meu país, rumo à tentativa de uma vida melhor no Primeiro Mundo, etc e tal...
Mas a óbvia constatação de que a hipocrisia é um fenomeno universal, remete-me a um caso específico, de um companheiro de curso de hospitality, aqui em Brisbane, na Austrália : o porto-riquenho Carlos Alberto.
Eu já sabia que Porto Rico – país localizado na América Central - era, ao mesmo tempo, estado pertencente aos Estados Unidos e que, “paradoxalmente”, fala espanhol.
Ok, explico esse paradoxo.
O passaporte desse nobre compatriota latino-americano mostra uma ambiguidade curiosa. Para aportar na Austrália, com o visto de estudante, ele passou pelo mesmo problema que nós, brasileiros: preencher toda a papelada da embaixada australiana; fazer os exames médicos necessários para entrar no país; comprovar que pode ficar por aqui sem trabalhar (mas todos têm de trabalhar, não tem jeito), para, enfim, conseguir o tão “sonhado” carimbo: “Sim, você agora está apto a estudar o principal idioma do mundo – inglês -, e tentar um emprego de limpador de privadas na nossa paradisíaca e imensa ilha britânica”.
Carlos, no caso, tem o visto de estudante. Pode trabalhar apenas 20 horas semanais. No entanto, por ser o melhor chef do restaurante, ele chegou a trabalhar mais: 40.
Resultado: a chefe teve de diminuir suas horas, alegando que o seu visto não lhe permitia fazer mais que 20 horas, e está com medo de deportar um “Cidadão Americano”.
Ah! Deixa ver se eu entendi. O nosso intrépido e talentoso chef, para chegar aqui, penou um bocado. Aprendeu inglês; continua com o visto de estudante e, graças a sua habilidade na cozinha, atingiu o cargo máximo na arte da culinária, no competitivo mercado australiano.
Porém –(ai, porém) Há um caso diferente-, a sua “dupla” cidadania (que de dupla não tem nada, já que para chegar aqui ele passou pelas mesmas dificuldades de qualquer um de nós, latinos, ou, melhor dizendo, TERCEIRO-MUNDISTAS), há o temor de sua chefe, que não quer sofrer a ameaça de que a imigração deporte um “Cidadão Americano” (que chique!).
Ao se averiguar que em seu passaporte está escrito “Cidadão Americano”, supõe-se que o costa-riquenho –a Costa Rica é considerada estado dos EUA- possa gozar de plenos direitos de um norte-americano. Mas não. Ele tem o direito apenas de trabalhar as 20 horas semanais por aqui e, caso seja deportado, seria complicado: afinal, que país do mundo quer criar problemas com quem realmente manda?
Seria o caso de se pensar: O Brasil e outros países da região passaram anos entregando suas riquezas aos Estados Unidos. Não seria a hora de, agora, os irmãos do Norte aproveitarem a deixa, permitindo que também sejamos “Cidadão Americanos”? Quem sabe, assim, seríamos tratados como seres humanos de primeira classe. Afinal, Não é qualquer “limpador de privada” que pode ser deportado com um passaporte MADE IN USA…

Saulo Andrade – Músico, jornalista e, atualmente, apenas um rapaz latino-australiano.

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