
Coisa mais interessante e ser cleaner de shopping (faxineiro de shopping), aqui na Australia. Sinto-me como um retirante nordestino, que, ao chegar no Rio de Janeiro, com muito esforço, consegue um emprego no Plaza Shopping Niterói (Praza, de humilde, né!), garantindo mais um "posto de trabalho" (como gosta de afirmar a nossa podre elitizinha direitista).
Eu, neste caso, sou um retirante do mundo. Venho de um exótico e distante País. Um "planeta" diferente, ao sul das Américas, muito conhecido pela violência, pelas festas (Carnaval!! Uhu!!), pela corrupção, pelo futebol cinco estrelas e pelas lindas "bailarinas", que supostamente falam espanhol ("Não? Sorry! No Brasil vocês falam português? Ah, não sabia"...).
Todas as loirinhas Anglo-Saxônicas -como em qualquer shopping da Barra-, empurradas pela correria do sonho pequeno-burguês de cada dia, são praticamente um objeto distante da minha realidade.
Invisível, faz-se necessário esquecer -durante o período laboral- toda a sua bagagem acadêmica. Afinal, limpar o chão de um templo de consumo é o que resta, pelo menos por enquanto, para a maioria dos imigrantes latino-americanos, quando a busca por dinheiro que paga as contas se torna mais importante que qualquer pseudo-posição na piramide social (especialmente em períodos de Crise Financeira Mundial).
Hoje à tarde passei por um episódio curioso.
A neo-zelandesa que trabalha comigou me perguntou: "Você gosta desse trabalho?". E eu disse: "Na verdade, eu nao gosto, mas é razoavelmente bom, já que consigo viver dignamente trabalhando como cleaner. No meu País sou jornalista". Espantada, desengoncada, envergonhada e sem o menor traquejo, ela chutou o balde, deixou a água quente cair no chão, e continuou, com os olhos arregalados de susto ("afinal, como pode um ser pensante trabalhar 'COM ISSO'?"): "Mas o que você está fazendo aqui, limpando?". E eu disse: "Isso e o que me cabe para bancar meus estudos, qualificar-me na Australia e, quem sabe, voltar ao Brasil para tentar -eu disse tentar- recomecar a minha vida profissional e receber o mesmo salário (ou menos) que recebo mensalmente aqui, mas trabalhando lá, como jornalista".
Definitivamente, ser faxineiro no Primeiro Mundo é um excelente exercício sociológico -propício para aqueles que pensam estarem construindo seus castelos, isoladamente de todo tipo de miséria humana. Coitados. Muita "gente bonita" -de alma pobre- de nossas grandes cidades não percebe que, no fundo, a favela são eles mesmos. Somos nada menos que o subúrbio do mundo.

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