Tuesday, May 19, 2009

Poesia de Dayse Mary de Andrade:


São 4 horas da manhã e Branca desperta de um sonho confuso.Ultimamente tem sido assim. Casa vazia, luzes apagadas. É o que Branca é.Ela se revira na cama grande, o rádio sempre ligado ao lado da cabeça noticiando repetidamante os mesmos fatos.Melhor assim.Quando sintoniza em estações musicais o sono nunca vem.As divagações a inquietam com as canções.Ainda agorinha Bethânia cantando sua realidade:”Ah... se eu te pudesse fazer entender...que eu preciso aprender a ser só...”Mas Branca não sabe a quem dirije sua dor de solidão profunda descrita na canção.Amores teve muitos. Amigos ,ontem mesmo era sábado e esteve com os mais próximos,Branca agora os revê parados,enfileirados em momentos e no aparador cheinho de porta-retratos. Alguns aconchegados a ela em abraços e sorrisos carregadinhos de cumplicidade ao seu jeito de ser, meio fora de padrão.Branca sempre se sentiu assim. Sem par. Mesmo exposta, compartilhando com todos suas dores e prazeres exagerados.E agora essa nova velha dor incessante e calada, erosiva, como se abrisse o túnel vazio e escuro do seu dentro em ser.Uma cidade craterada bem ao meio sua angústia.Se ao menos pudesse se embriagar no absinto da leveza ... um copo de vinho para celebrar a vida,comemorar o tempo que passou e o que está por vir.Do que será feita a vida de Branca daqui a não sabe mais tempo?Continuará assim, alguns outros sábados, os bares, os amigos mais próximos enfileirados em sorrisos e frases, se entreolhando , tentando sempre um grande encontro?Todo mundo compartilhando o “é melhor ser alegre que ser triste, mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”...
Agora lhe vem à tona o depoimento do Zé Catimba, o grande compositor.De um requinte tão feito do simplesmente.As palavras dele se repetiam ecoando pela sala de Branca.
Zé Catimba veio lá do sertão mas “vive na cidade sem ficar contrariado”há muitos anos..Uma belezura só,a alma deste homem , resplandecendo no encontro do bar, pairando sobre a mesa como luzes suspensas.Coisa mais bonita o desfolhar da história de um sertanejo,um personagem contemporâneo trazendo dentro outros tantos e tempos de outrora. Lirismo de repentista e feiras de nordeste, realejo urbano,sonhos por atacado em sambas e canções ,maçãs do amor de parques da memória. Uma literatura inteirinha feita de menino de rua, engraxate,morros , planícies,mares,avenidas, de todas as subidas e descidas de uma trajetória; mangueiras e portelas desfilando na varandinha do encontro.Mestre-sala da existência.Sua porta-bandeira, a poesia, que ele vai conduzindo em estações primeiras de canções e penúltimas pois sempre haverá uma próxima. E enquanto falava sentia-se à volta uma aura de alas e escolas e velhas guardas de anjos negros e sambistas.Lindas cabroxas entre nuvens de confetes e estrelas rodopiavam ,os quadris ao som de suas palavras - bateria nota 10- e de um samba ainda não escrito.
Além dele, só as rosas falavam.Mas poucos ouviram.
Imagem: http://ipt.olhares.com/data/big/6/62285.jpg

Dayse Mary de Andrade

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